quarta-feira, 18 de julho de 2012

A crítica à categoria totalitarismo, por Domenico Losurdo

Domenico Losurdo está entre os intelectuais marxistas que criticam a categoria de totalitarismo, tal como ela é entendida pelo pensamento liberal (vale notar que a acepção vulgar que essa categoria adquiriu no senso-comum/cotidiano é reflexo da acepção teórica que ela adquiriu, sobretudo, a partir da Guerra Fria e pelos porta-vozes do pensamento liberal). Neste sentido, pode-se iniciar a argumentação de Losurdo pelo fim: o contexto histórico-político da Guerra Fria é determinante na definição do termo. É digno de nota que a relação crítica se inverte: se os teóricos do totalitarismo imaginavam-se em oposição e fazendo uma crítica aos regimes políticos totalitários, a categoria que eles erigiram para tanto volta-se contra eles próprios e, no contexto do mundo dividido em dois campos ideológicos antagônicos, torna-se arma ideológica de combate contra o comunismo. É sintomático, portanto, que os teóricos do totalitarismo façam vista grossa, ou mesmo pareçam ignorar completamente, a própria situação dos países onde vivem, nominalmente os países de língua inglesa. Se estendermos a mesma lógica argumentativa, por eles empregada para analisar a Alemanha nazista e a URSS stalinista, aos países tidos por eles como o avesso do totalitarismo, baluarte da liberdade e da igualdade, veremos que há muitos pontos formais de contato. Mas tal procedimento seria um erro da nossa parte, não porque estaríamos partilhando, com os totalitaristas, da caracterização feita por eles – ou seja, de que Alemanha nazista e URSS stalinista são exemplos clássicos/prototípicos de totalitarismo em oposição às democracias ocidentais –, mas antes porque estaríamos fazendo concessão ao seu método formalista. Fazendo comparações formais, ser-nos-ia fácil estabelecer aspectos paralelos e superpostos entre regimes totalitários e regimes democráticos. Causa estranheza, portanto, que os teóricos do totalitarismo não tenham nem mesmo conseguido tirar as consequências necessárias do próprio método falho com que analisaram o fenômeno – a explicação que propuseram, portanto, está duplamente limita: metodológica e ideologicamente.

Essa tenaz relutância em ver nas democracias ocidentais (sobretudo Inglaterra e EUA) elementos cujo parentesco com regimes ditos totalitários salta aos olhos só pode ser explicado, com efeito, pelo campo ideológico no qual os totalitaristas se movem, a saber, o liberalismo político-filosófico (aí incluído o liberalismo econômico); ou, se quiser, o ponto de vista burguês. É sob esta ótica que Domenico Losurdo questiona, por exemplo, o fato de que os teóricos do totalitarismo elejam, como aspecto central do fenômeno, o partido único e não o mito racial, pedra angular do nazismo. Ora, não o fazem porque admitir que o racismo, em suas implicações ideológicas e políticas gerais, constituiu a base do nazismo acabaria por expor o fato de que, na base dessa ideologia, não se encontra exclusivamente o pangermanismo, mas também a crença inglesa na superioridade aristocrática do povo inglês, a ciência eugênica que alcançou seu florescimento máximo nos Estados Unidos, etc.

A teoria do totalitarismo é, portanto, essencialmente seletiva, e cumpre uma função ideológica no contexto pós-segunda guerra. Deve-se ressaltar aqui que Losurdo não olvida as especificidades que a categoria totalitarismo possui em Arendt, intelectual que é, aliás, a expoente mais insigne dessa corrente teórica. Sua obra Origens do totalitarismo pode ser dividida em duas partes (ou dois livros, como se refere Losurdo) que não se fundem organicamente ou só o fazem de modo muito problemático. O primeiro “livro” (digamos assim para não confundir com as três partes que compõem o livro de Arendt), constituído pelas duas primeiras partes do livro, foi escrito num clima ideológico anterior à Guerra Fria e exprime um entendimento sobre a URSS muito diferente daquele que Arendt expressa no segundo livro, quando os soviéticos tornaram-se manifestamente inimigos do “mundo livre”. Se no primeiro livro Arendt explica o totalitarismo a partir da lógica imperialista e das condições culturais onde o fenômeno floresceu, e encontra, deste modo, tais fatores também na Inglaterra, na França e nos EUA; no segundo livro essas conclusões acabam sendo escamoteadas, tornando possível estender o fenômeno até a URSS ao mesmo tempo em que se o elimina daqueles países. A ideologia total vai ser, então, buscada diretamente em Marx e em sua filosofia da história, supostamente teleológica e desumanizante; vai ser buscada também na concepção leninista de partido; etc. De resto, a disjunção e inconsistência entre os dois “livros” de Arendt é evidente e foi percebida pela maioria dos críticos, inclusive os que partilham das conclusões da autora.

Por fim, à guisa de epílogo, transcrevo aqui os dois primeiros parágrafos do penúltimo item do artigo de Losurdo, os quais oferecem uma síntese da sua crítica à categoria totalitarismo:

“O defeito fundamental da categoria de totalitarismo é transformar uma descrição empírica, relativa a certas categorias determinadas, numa dedução lógica de caráter geral. Não há dificuldades em constatar as analogias entre URSS staliniana e Alemanha nazista; a partir delas, é possível construir uma categoria geral (totalitarismo) e sublinhar a presença nos dois países do fenômeno assim definido: mas transformar esta categoria na chave de explicação dos processos políticos verificados nos dois países é um salto assustador. Sua arbitrariedade deveria ser evidente, por duas razões fundamentais. Já vimos a primeira: de modo sub-reptício as analogias que subsistem entre URSS e Terceiro Reich quanto à ditadura do partido único são consideradas decisivas, ao passo que são ignoradas e removidas analogias no plano da política eugênica e racial, que permitiriam instruir conexões bem diferentes.

“Quanto à segunda razão, mesmo se concentramos a atenção sobre a ditadura do partido único nos dois países geralmente postos em confronto, por que remeter à afinidade de suas ideologias antes que à semelhança das situações políticas (o estado de exceção permanente) ou ao contexto geopolítico (a particular vulnerabilidade) que os dois países tinham de enfrentar? Parece-me evidente, em vez disso, que como fundamento do fenômeno totalitário, juntamente com as ideologias e as tradições políticas, age poderosamente a situação objetiva.” (2006, p.76)

Em suma, o crítico chama a nossa atenção, quanto ao problema da categoria totalitarismo, para ao menos três aspectos: 1) a inconsistência do procedimento metodológico que consiste em fazer comparações formais entre características arbitrariamente abstraídas do fenômeno; 2) a existência de uma dimensão ideológica, o liberalismo, que não apenas inspira e anima as teorias sobre o totalitarismo, como também serve, no interior desta categoria, de arma contra ideologias antagônicas, notadamente o comunismo; e 3) a necessidade explicar o fenômeno totalitário a partir das condições sócio-históricas objetivas que lhe dão origem.
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